terça-feira, 29 de março de 2016

Por que devemos nos questionar sobre a liberação da Fosfoetanolamina

Oi, gente!
No dia 23 desse mês, o Senado aprovou o uso da Fosfoetanolamina, a "pílula do câncer", através do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 3/2016, que autoriza pacientes com câncer a usarem a a fosfoetanolamina sintética antes de seu registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O projeto foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) no dia 17 de março e segue agora para sanção presidencial.
Pelo texto, que tem como autores 26 deputados, o paciente deve apresentar laudo médico que comprove o diagnóstico e assinar termo de consentimento e responsabilidade. O uso da substância é definido como de relevância pública.


Há vários tópicos que devem ser abordados sobre esse tema.
Primeiramente, o texto do Projeto de Lei que autoriza esses pacientes a utilizarem a fosfoetanolamina diz que o paciente deve apresentar laudo médico. Isso significa que o governo está transferindo a responsabilidade pro médico (não que isso seja algo ruim), porque se o governo se responsabiliza por isso, ele que vai ter que indenizar e dar conta de quem tiver sequelas por conta do uso da fosfo. Já pensou no tamanho do prejuízo?

Mas afinal, o que é o câncer?
Câncer é o nome genérico para um grupo de mais de 200 doenças. Embora existam muitos tipos de câncer, todos começam devido ao crescimento anormal/desordenado (maligno) e fora de controle das células. Esse crescimento é diferente do crescimento celular normal. Em vez de morrer, as células cancerosas continuam crescendo e formando novas células anômalas. As células cancerosas também podem invadir outros tecidos, algo que as células normais não fazem.


As células se tornam cancerosas devido a um dano no DNA. O DNA é um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas de todas as células. Toda a informação genética encontra-se inscrita nos genes; é através do DNA que os cromossomos passam as informações para o funcionamento da célula.
Uma célula normal pode sofrer alterações no DNA dos genes. É o que chamamos mutação genética. As células cujo material genético foi alterado passam a receber instruções erradas para as suas atividades.

Além disso, há o risco de haver a indução de novas mutações caso ela atue por meio de alterações na fita de DNA e também sobre a possibilidade de mutações que possam ser transferidas a herdeiros mais tardiamente.
Fonte: Cs6

Como é o tratamento para câncer?
Quimioterapia é o tratamento com medicamentos para destruir o câncer, administrados por via intravenosa ou por via oral. A quimioterapia sistêmica é administrada na corrente sanguínea para poder atingir as células cancerígenas em todo o corpo.
A quimioterapia é administrada em ciclos, com cada período de tratamento seguido por um período de descanso, para permitir que o corpo possa se recuperar. Esses quimioterápicos matam as células tumorais por interferir no processo de divisão celular.


Por qual motivo que as pessoas passam mal fazendo quimioterapia?
As células tumorais morrem devido à toxicidade dos quimioterápicos durante o seu processo de multiplicação. Ocorre que os quimioterápicos se espalham por todo o organismo pela corrente sanguínea, e não matam apenas células tumorais que estejam se dividindo, mas também células normais do organismo, que também se dividem. Devido a este efeito sobre as células normais, que acabam morrendo também, é que os quimioterápicos têm diversos efeitos colaterais como queda de cabelo, aftas (mucosite), diarreia, anemia, baixa da imunidade (baixa dos glóbulos brancos), risco de sangramento (baixa de plaquetas) entre outros.

E onde que está o problema da Fosfoetanolamina no meio disso tudo?
Não sabemos o mecanismo de ação da Fosfo! Esse é o problema. 
"Por desconhecermos seu mecanismo de ação, não temos compreensão de como ela fará para matar as células tumorais e nem que tipo de células tumorais são sensíveis a ela. Além disso, desconhecer como o medicamento age no organismo deixa ainda mais imprevisível sobre a variedade de efeitos colaterais possíveis, tanto a curto como a longo prazo." diz o professor de Farmacologia da UNIVILLE, Eduardo Manoel Pereira.
E ele acrescenta: "o conhecimento do mecanismo de ação sobre as células tumorais é fundamental para que se faça uso racional e seguro do medicamento, pois é assim que identificamos como o medicamento afeta o nosso organismo para então trabalharmos dentro de condições máximas de eficácia e mínimas de efeitos adversos."
A fosfoetanolamina não passou por todos os estudos, com animais e com seres humanos, exigidos no Brasil e em outros países do mundo, para a aprovação de um medicamento. Eles são necessários para garantir a segurança e comprovar a eficácia. Existe o risco de substâncias causarem efeitos colaterais graves ou não terem ação sobre a doença, o que pode causar o agravamento do quadro e até a morte.




Eu entendo que na hora do desespero queremos soluções rápidas, porém isso tudo deve ser tomado com cautela. Podemos estar abrindo uma porta que pode resultar em muitos problemas futuros passando por cima do parecer da ANVISA.
É provável que os médicos irão autorizar a partir do momento que todas as outras opções já terem se esgotado, mas é ilusório pensar que a fosfo vai curar todos os tipos de cânceres e pior: que deve ser utilizada no lugar do tratamento convencional (que é a quimioterapia).

O uso em larga escala da fosfo deve ser cuidadoso e questionado. Quem está no Senado não entende muito dos riscos e acaba representando isso tudo de forma errada. "O direito fundamental. Saúde é de todos e dever do Estado" é o que diz na Constituição, algo defendido por advogados que podem estar desconsiderando a potencial de toxicidade da fosfoetanolamina que desconhecemos e até mesmo contribuindo para um dano maior no futuro.

O milagre que está sendo colocado em torno da fosfo de curar todos os tipos de câncer é utópico.
Sim, há pessoas que concordam (mesmo com bastante dificuldade, que é o meu caso) em permitir o uso da fosfo em pacientes em estado crítico para podermos analisar e ter conhecimento diante do que for acontecendo. A população precisa compreender que não é insensibilidade que temos com os pacientes... é preocupação com consequências mais tardias mesmo.



Esse texto teve a colaboração do professor Eduardo Manoel Pereira, mestre em Farmacologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atualmente professor da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).


Fontes:

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