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terça-feira, 11 de agosto de 2015

A dor de um término, de novo

Sábado à tarde eu fui até a Farmácia e pedi para conversar com a Farmacêutica Responsável pela Drogaria.
- Pois não, em que posso te ajudar? - ela perguntou.
- Olha só, eu estou com um problema no coração, ele está doendo muito, absurdamente.
- Você já toma alguma medicação para o coração? Tem cardíaco na família?
- Não, não esse problema de coração. - eu disse. - A dor no coração depois de um término. Mais especificamente, depressão pós término de noivado.

Obviamente não havia nada ali que curaria a minha dor e a Farmacêutica me orientou a buscar uma psicóloga ou algo do tipo.
Depois de muitos anos, estou sentindo essa dor novamente. A dor da rejeição, a dor da separação, a dor de ter que recomeçar tudo mais uma vez.
As pessoas com quem eu comentei sobre o término, falaram-me o clichê de sempre.
"Você vai superar."
"Ele nem devia te amar tanto assim, pra te deixar."
"Deus tem algo muito melhor pra ti."
"Como assim? Você é linda, inteligente e querida. Não foi você quem saiu perdendo."
"Você já passou por coisa muito pior, como perder a sua mãe."

As afirmações estão certas? Algumas, sim. 
A verdade é que um relacionamento é feito de duas pessoas. Por mais que a parcela de culpa caia sobre um dos lados, ambos permitiram que aquilo acontecesse.
O problema do fim é que você não consegue vislumbrar um novo começo. Estamos tão embrulhados na dor, que não conseguimos seguir em frente. Não queremos saber de outras pessoas e só de imaginarmos esse fato somos golpeados por uma dor muito forte. O problema não é só terminar, o problema é ver ele com outra, ver a felicidade que era sua sendo preenchida por outro ser.

Parece que se o amor não tiver dor, não é válido. Precisamos sofrer e às vezes perder para reconhecermos o que estava diante dos nossos olhos. 
Por vingança, vem a vontade de fingir que está feliz, que está superando. Há vontade de sair com outras pessoas, só para provar que você está seguindo em frente, quando na verdade você não está. Coração não é panfleto de rua pra se entregar ao primeiro que passa.

Eu sei, essa dor vai passar.
Eu sei, eu vou superar.
Eu sei, vai chegar um dia que eu vou olhar para trás e ter lembranças boas que tive com alguém que não existe mais na minha vida.
Mas enquanto isso eu fico aqui, embrulhada na dor, esperando Deus me curar enquanto o tempo passa.
Afinal, de quantas maneiras um coração pode ser despedaçado e ainda assim continuar batendo?



Ana.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Relato de uma (ex) atleta

- Eu quero esse tempo reduzido, dona Ana.
Foram essas as últimas palavras que eu ouvi, antes de ir para o balizamento, esperar a minha prova. Talvez um dia eu extraia todos os relatos desse diário de atleta para contar essa minha história para as pessoas compreenderem que, não basta só se ter amor pelo esporte ou por qualquer coisa que você se faz. Nada cai do céu. E como o meu próprio técnico diz "Se natação fosse fácil, se chamaria futebol."
A minha prova era 800 metros livre, e me recordo com precisão do olhar do meu técnico: de um jeito exigente.
A culpa não era dele.
Quando se é atleta você compreende que o seu técnico não é seu vilão, e sim seu amigo, pois ele acredita em você quando mais ninguém acredita.
800 metros era uma prova demorada. Mas eu não tinha o que reclamar. Eu havia pedido pro meu técnico me colocar nessa prova. Não sou fundista nem velocista, então nadar essa prova não faria mal pra mim.

A minha raia era a dois. Não gostei, odeio raia do canto porque a água bate na parede e volta pra gente, criando 'ondas' bem na hora que se respira. Mas tudo bem, encarei. Segundos antes da outra prova terminar, passei o olho na arquibancada. Meu técnico assobiou, como forma de me encorajar e de não me assustar com o tamanho das outras atletas. Elas eram todas enormes, fortes, iguais aquelas atletas como a gente vê na televisão. Acho que quase todas ali eram fundistas.
Uma menina da raia 5 olhou pra mim. Sorri pra ela como forma de demonstrar que eu não tinha nada contra ela, mas que na hora em que caíssemos na água, era cada uma por si. Ela me olhou de cima a baixo, deu uma risadinha, colocou o óculos no rosto, ajeitou a touca e virou a cara pra mm. Normal, já estava acostumada com esse tipo de atitude, afinal, natação é um esporte solitário, de certa forma.
Eu me alonguei mais um pouco, apertei os óculos e ajeitei a touca. Estava pronta. Subi no bloco e me concentrei apenas no som do disparo. Caí na água.

Toda vez que eu respirava e virava pro lado da arquibancada, conseguia enxergar o meu técnico e meus amigos, tanto da minha equipe quanto das outras equipes, amigos meus de outras cidades. Isso sempre me passou uma certa segurança.
Passaram-se 400 metros e eu ainda tinha pique pros outros 400 que ainda faltavam. Nessa metragem eu estava em segundo lugar.
Tudo começou a arruinar quando dei uma braçada fora do tempo e na hora da virada pros 450 metros, engoli um pouco de água. Tossi embaixo da água achando que era só um imprevisto, nada mais. Na virada pros 550 metros, o lado esquerdo do meu óculos ficou frouxo (acho que foi de tanto usar aquele óculos. Ah, e de tanto jogar ele na piscina também, provavelmente) e a cada vez que eu respirava entrava mais água no óculos. Isso começou a me irritar e fiquei desesperada. Ainda estava em segundo lugar, mas a terceira colocada estava me alcançando.
Nos 650 metros minha touca subiu um pouco e eu realmente comecei a entrar em pânico. Por conta do nervosismo, aquilo foi me cansando tanto fisicamente quanto mentalmente.
Até que, nos 700 metros o lado direito do óculos afrouxou de forma que fez entrar água e, uma das minhas pernas travou. Eu tentava enxergar, mas a única coisa que eu enxergava era a parede, nem as outras nadadoras eu não conseguia, tudo estava embaçado. Minhas pernas ardiam, meus braços ardiam, minha respiração começou a ficar pesada e o cloro já estava irritando demais os meus olhos.
Nos últimos 25 metros, tentei resgatar alguma força de mim. Fiquei pensando que no final, todo aquele sofrimento, bem no final da minha prova, não tinha sido nada de mais, e que eu ainda iria pegar alguma colocação e abaixar o meu tempo.

Bati a mão na parede. Primeira coisa que fiz foi olhar pro placar de tempo. Eu havia aumentado trinta segundos, o que já era suficientemente um fracasso.
Quando me dei conta, já tinham nadadoras saindo da piscina. Fiquei em quarto lugar, por bastante diferença da outra menina. Desatei a chorar de tanta raiva de mim mesma. De tanto ter suado a camisa pelo trabalho difícil pra no final dar tudo errado. A frustração é enorme, porque a dedicação é tão grande nos treinos duplos (um deles começa às 05h30 da manhã e o outro às 13h00 - tudo isso no mesmo dia!!) que dói chegar na competição e fazer esse fiasco. 

Talvez no futuro, caso eu não seja mais atleta, eu consiga enxergar que esse é apenas uma das provas que eu vou ter que enfrentar na minha vida.
Retomei o fôlego e saí da piscina tendo em mente que, mesmo que eu tinha perdido aquela medalha e aquele tempo, eu não tinha desistido. Tinha me esforçado até o último milésimo de segundo. E então, ergui a cabeça. Eu sabia que superaria aquilo.



A foto é de uma das tantas competições que participei, mas não é da competição
 citada no texto


Relato extraído do meu Diário de Atleta (sim, eu tenho um!)


Ana.