Essa semana completou mais um mês de saudade da minha mãe,
no dia 7. Nessas horas o tempo é
relativo. Ao mesmo tempo em que eu analiso que já fizeram 1 ano e 7 meses desde
que ela faleceu e que isso é bastante tempo, também parece que foi ontem que
isso tudo aconteceu.
Minha mãe foi diagnosticada com câncer de pulmão, em Junho
de 2013. Uma semana antes de ir à pneumologista ela teve tosses que saíam
sangue, o que foi o suficiente para nos assustar. Eu fui com ela à
pneumologista e lembro que no raio-x a médica comentou que não tinha certeza,
que seria necessário fazer biópsias para confirmarem, mas que ela suspeitava que poderia ser um câncer.
Eu, que estava com ela, ao invés de dar forças, comecei a chorar feito louca. Lembro que minha mãe olhou pra mim, se segurando para não chorar e disse: “Calma, a mãe vai ficar bem.”
Eu, que estava com ela, ao invés de dar forças, comecei a chorar feito louca. Lembro que minha mãe olhou pra mim, se segurando para não chorar e disse: “Calma, a mãe vai ficar bem.”
A
minha reação foi tão espontânea pelo fato de que quando ouvi a palavra câncer,
a primeira coisa que pensei foi: ela
pode morrer.
Tudo foi feito pelo SUS, desde as internações até as biópsias.
Foi necessário fazer quimioterapia e radioterapia, sessões das quais não me
lembro o número.
No
início, ela estava bem. Andava pelos corredores, vivia sorridente, brincava com
os enfermeiros, fez amizade com praticamente todos no hospital. Quando a biópsia
saiu, ela me disse que o câncer era benigno (algo que foi escondido por ela,
pois depois que ela se foi, acabei vendo os resultados dos exames que indicavam
como maligno). Infelizmente as sessões de quimioterapia a deixaram fraca, sem
fome, magra a ponto de seus ossos saltarem, mas não a deixaram tão para baixo a
ponto de deixar de sorrir, ter esperanças e tratar todos bem.
A casa dela era o hospital.
Ela até agradecia por ter todos os efeitos adversos que a quimioterapia trazia,
porque se ela ficasse em casa ela precisaria repousar; algo que era muito
difícil para ela. Cansei de estar em casa e vê-la fazendo comida, varrendo a
casa, enquanto ela deveria estar descansando. Mas eu não a culpo, pois ela foi
ativa durante todos os anos da sua vida.
Agradeço a Deus por ter permitido que ela estivesse viva no
meu aniversário (11 de Novembro), o último aniversário que ela esteve comigo.
Ela estava relativamente bem e conseguiu estar em casa nesse período.
Então ela teve uma metástase na coluna, o que a impediu de
andar, pois a dor era imensa e uma metástase no outro pulmão, o que comprometeu sua capacidade respiratória. (Em termos simples, a metástase é quando o câncer
vai para outro local do corpo).
Ela
começou a ficar na base da morfina para cessar a dor e lembro que foi muito
triste essa época, pois ela começou a esquecer quem eu era, não queria comer e só brigava com todos. Chegou num ponto em que ela dormiu e não acordou mais.
Tudo era na base das sondas. Ela ficou no quarto, mas nunca chegou a ir para a UTI.
Numa quarta-feira à tarde, de chuva, eu havia deixado de ir
trabalhar para ficar com ela e comecei a conversar com ela. Comecei a contar
sobre como estava indo tudo bem na faculdade, que talvez eu passaria de ano
direto, como estava o estágio, dentre outros assuntos que eu contava a ela
desde que ela havia apagado. Até que naquele dia, depois de dias sem acordar,
ela abriu os olhos pra mim. Lembro que comecei a gritar (um misto de surpresa e alegria) como uma criança, e ela
só ria. Disse “oi, filhaaaaaaaa”, sorrindo com a boca toda ressecada de tanto
tempo que estava fechada. Impedi que ela voltasse a dormir, comuniquei toda a
minha família, enfermeiros, e em questão de minutos todos foram vê-la. Ela
dizia que estava bem, que não tinha dor, e que estava com fome. Foi a primeira
vez em semanas que ela comeu sem a sonda. Eu disse a ela que a amava muito (e ela retribuía o tempo inteiro dizendo que me amava, que amava todos que estavam ali com ela), e
eu acreditei do fundo do meu coração que aquilo era um sinal que ela iria
melhorar. Mas não era. Foi só uma oportunidade que Deus nos deu para nos
despedirmos dela.
No final de Novembro o médico foi curto e direto: “é questão de sentar e esperar. Não posso
fazer mais nada por ela.” O hospital trouxe uma psicóloga para me acalmar,
mas eu me recusei. Lembro que fui grossa com a psicóloga, mas o que podia se
esperar de reação de alguém que havia acabado de ouvir do médico que sua mãe ia
falecer e que seria questão de horas?
Então, finalmente, no dia 7 de Dezembro de 2013, um sábado
chuvoso, ela faleceu ao lado do meu pai. Minha tia me ligou e disse: “acabou,
Ana Luiza. Ela descansou.” Não chorei, não falei nada. Eu sabia que era egoísmo
da minha parte querer que ela continuasse comigo, sofrendo. Eu agradeci por
Deus tê-la levado, pra acabar com o sofrimento.
Basicamente, foi isso. A história de câncer dela foi
diferente de várias outras histórias, mas tristemente com o mesmo final. No
começo, só havia dor. A não-aceitação do meu pai e a raiva contida do meu
irmão. Hoje, todos conseguimos lembrar dela sem sofrer, porque Deus cuidou de
todos nós. Hoje sou mais forte porque aprendi a ser forte como ela. Porque vi ela lutando até o fim da sua vida. Tudo o que faço de certa forma penso nela, porque sei que ela teria orgulho. A dor, graças a Deus passa, o que fica com a gente é apenas a
saudade.
Mas Deus nos ensina por meio do sofrimento e usa a aflição para abrir os nossos olhos. (Jó 36:15 NTLH)
Mas Deus nos ensina por meio do sofrimento e usa a aflição para abrir os nossos olhos. (Jó 36:15 NTLH)
Ana.






Que Lindo!!
ResponderExcluirImpossível não se emocionar com a história contada sob um olhar tão amavel e compassivo como o seu.
Parabéns pelo texto, pela história a nós contada e pelo Amor do início ao fim, e para sempre.
Ana,
ResponderExcluirSinto muito, por sua mãe, por tudo que lhe aconteceu, do fundo do meu coração...
Mas agradeço à Deus, à vida, por nos dar a oportunidade de conhecer pessoas como você:
Exemplo de alegria e de superação!
Ana, desde que lhe conheci sabia que você é uma pessoa mais que especial, que ilumina a todos com seu sorriso sincero, lhe desejo tudo de bom que a vida possa lhe oferecer, muita fé, força, amor e muita, mas muita felicidade!
Um abraço enorme de quem te admira muito...